Até pouco tempo, a mulher era obrigada a ir para o fogão todos os dias e preparar as refeições da família, gostasse ou não. Quando a mulher começou a conquistar sua independência, a cozinha se tornou um território quase que inimigo e a frase ” não sei nem fritar um ovo” virou um tipo de mantra feminista.

Cozinhar é uma forma de celebrar a vida, reunir os amigos, alimentar o corpo e a alma. E tudo isso faz da cozinha o melhor lugar da casa. Além do mais, sua aura democrática recebe a todos, mulheres, homens, crianças, amigos e amores.

Acontece que nasci no interior,  e desde sempre ouvi de minha mãe, avó e tias que eu deveria estudar, trabalhar e jamais depender de homem algum, então elas me afastaram das tarefas domésticas e me mostraram os encantos dos livros e da imaginação. Assim, convenientemente me adaptei ao papel de degustadora oficial da família: mal sabia acender o fogão, mas na hora de provar, pronto, era só me chamar que eu ia rapidinho.

Transformar simples ingredientes em pratos saborosos sempre foi tarefa impossível para mim, mas ficava fascinada com a alquimia que acontecia naquele laboratório mágico e quando adolescente bem que tentei me aventurar por lá. Um dia resolvi fazer uma surpresa e fritar bifes. Coloquei-os na frigideira. Sem amaciar, sem temperar, sem óleo, azeite ou manteiga. O resultado? Algo parecido com uma sola de sapato, duro, sem gosto e “incomível” (existe essa palavra?).

E não para por aí. Já fiz bolo de fubá sem fubá. Nhoque de arroz que ficou com gosto e aparência de farinha de rosca, creme de milho que nem o cachorro que comia de tudo, aceitou e certa vez em uma festa, quando uma amiga perguntou se eu poderia fazer o vinho quente, tentando impressionar disse que sim. Despejei dois litros da bebida no canecão e esquentei. “Ué, vinho quente não é vinho esquentado?”

Virei motivo de chacota entre a família e os amigos.

Confesso que nada disso me incomodava. Ao contrário! Até me orgulhava de nem mesmo saber fritar um ovo, afinal eu seria livre, estudada e feminista, o orgulho das mulheres da família. Quando vim para São Paulo tudo mudou, aprendi que não havia nada tão libertador quanto preparar a própria comida, afinal, isso também é ser independente! Além do mais, percebi que aprender a cozinhar era a maneira que eu encontrava de estar mais próxima de minha mãe e minha avó. Uma forma de me sentir em casa em qualquer lugar do mundo.

Ainda não virei a cozinheira “do trivial ao requintado”, como dizem na minha terra, mas, a cada dia, entre histórias e receitas, aprendo a deixar a vida mais saborosa. Não vai embora não, fica… vou passar um café pra gente.

 

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